domingo, 13 de fevereiro de 2011

A máquina lenta da indiferença, poema de Julio Cortázar



A máquina lenta da indiferença
tritura em suas engrenagens os amantes :
corpos separados , travesseiros jogados,
páginas de cartas de amor rasgadas, beijos findos.
De pé diante do espelho
cada um questiona para si
as causas e o tamanho do desastre,
não mais olhando para o outro
com a nudez que não é mais para o outro.
Já não há um eu te amo meu amor,
que se bateu em retirada.

Tradução livre de Jaime Leitão

A Mosca, de Julio Cortázar

Eu terei que matá-la de novo.
Já a matei tantas vezes,
en Casablanca, em Lima,
em Cristiânia,
em Montparnasse, em uma fazenda em Lobos,
no bordel, na cozinha, sobre um pente,
no escritório.
Nesta almofada
terei que matá-la de novo,
única e plural mosca.
E eu a matarei com a minha única vida.

Tradução livre de Jaime Leitão

O QUESTIONADOR, poema de Julio Cortázar

Não me pergunto pelas glórias ou derrotas
nas grandes batalhas,
quero simplesmente saber onde vão se acumulando
as andorinhas mortas,
para onde vão as caixas de fósforo usadas.
Por maior que seja o mundo,
não se pode esquecer
das mínimas coisas
como os pedaços de unhas cortadas , os pelos,
os envelopes fatigados e amassados, os cílios que caem.
Para onde vão as nuvens , a borra do café,
os almanaques de outros tempos.
Pergunto por tudo aquilo que nos move ;
nesses cemitérios imagino que cresça
pouco a pouco o medo
que de uma pedra
nos mira com olhar sinistro.

Tradução livre de Jaime Leitão

Poema para ler em forma de interrogação, do poeta, romancista e contista argentino Julio Cortázar

Você viu
verdadeiramente viu
A neve as estrelas os passos felpudos da brisa
Você tocou
verdadeiramente tocou
o prato o pão a face dessa mulher que tanto ama e amou
Você viveu sentindo como um golpe na testa
o instante em que a respiração fica ofegante
entre o voo e a queda.
Você soube com todos os poros da pele
com os seus olhos as suas mãos o seu sexo
acionar o seu coração mole
que precisava chorar
e ser inventado novamente.

Tradução livre de Jaime Leitão.
Cortázar morreu há vinte e sete anos, no dia 12-02-1984.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

UMA ARTE, POEMA DE ELIZABETH BISHOP

A arte de perder não é difícil de dominar;
tantas coisas parecem ser feitas com essa intenção,
a perda em si não é um desastre.

Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite o alvoroço
de perder chaves, a hora mal gasta.
A arte de perder não é difícil de dominar.

Então pratique perder mais, perder mais rápido:
lugares, nomes, e a cidade para a qual você pretendia ir.
Nenhuma dessas perdas é um desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. E olha que o meu passado, do mais próximo
ao mais remoto, incluindo as três casas em que vivi , foi muito amado.
A arte de perder não é difícil de dominar.

Perdi duas cidades lindas. E, mais vastos,
alguns reinos que tive, dois rios, um continente.
Eu sinto falta deles, mas não foi um desastre.

- Mesmo perder você (a voz que ria, um gesto,
uma declaração, um Eu te amo) dito sem nenhuma mentira
e sem fazer teatro.
É evidente que a arte de perder não é muito difícil de dominar,
embora pareça algumas vezes um desastre.

Tradução livre de Jaime Leitão.

DE FERRO, POEMA DE ELIZABETH BISHOP

Sozinha na ferrovia
no trem sem rumo na paisagem torta
Eu viajei com o coração disparado.
Os laços foram muito próximoss entre si
ou talvez muito distantes.

O cenário era pobre:
pinheiros e arbustos de carvalho;
a folhagem verde-cinza misturava-se
em um movimento de encontros e desencontros.
Eu vi o laguinho
onde a vida é suja e mente
como um velho ermitão,
que traz uma antiga lágrima
agarrada aos seus ferimentos
lucidamente ano após ano.

O eremita disparou a sua espingarda
e a árvore de sua choupana balançou.
Sobre a lagoa houve uma ondulação
e a velha galinha de estimação foi destroçada.

"O amor deve ser posto em ação!" ,
gritou o velho ermitão.
Do outro lado da lagoa, um eco tímido
tentou -em vão-
confirmar a sua fala.

Tradução livre de Jaime Leitão.



►

CASA BRANCA, POEMA DA POETISA NORTE-AMERICANA ELIZABETH BISHOP , QUE VIVEU MUITOS ANOS NO BRASIL. HOJE, COMEMORA-SE O SEU CENTENÁRIO




O amor é o menino que estava no convés de gravação
tentando recitar :"O menino estava no
convés em chamas".
O amor é o menino, é o filho
que ficou gago
enquanto o pobre navio era tomado pelas chamas.

O amor é o menino obstinado, o navio,
mesmo os marinheiros de natação,
que gostariam de ter acesso a uma plataforma de aula
ou uma desculpa para ficar
no convés.
O amor é o garoto de gravação.
O amor é o convés em chamas.
O amor são os marinheiros de natação
escapando a nado
do navio em chamas.

Elizabeth Bishop (8 de fevereiro de 1911-6 de outubro de 979)

Tradução livre de Jaime Leitão.