quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

FLORES, poema do dramaturgo romeno Eugène Ionesco (1909-1994), um dos maiores nomes do teatro do absurdo, escrito quando o autor tinha 20 anos.





As flores coletadas em vidros
aprisionadas
estão chorando
E sonhando com borboletas em pomares de sol.
As flores pensam: -Morremos recolhidas,
exiladas da vida.

Tão triste e patético o gotejamento de água
que forma pontos de luz.
Uma das flores desabafa: - Todos pensam que somos apenas pétalas.
Só nós sabemos o peso das nossas lágrimas
brotando de nossa alma.

A abelha traz notícias das irmãs.
Há um clima de profunda nostalgia
crescendo entre as flores presas.

Saudade das flores silvestres.
Elas sonham com borboletas enquanto morrem.
À distância, nos pomares,
brilha o sol.

Tradução livre de Jaime Leitão

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

QUEM SOU EU?, poema de Antonin Artaud



Quem sou eu?
De onde eu venho?
Eu sou Antonin Artaud
e o que eu digo
do modo como eu sei dizer
é que imediatamente
você verá o meu corpo atual
explodindo em mil partículas
e escolhendo instantaneamente
se reconstruir
em uma surpreendente reorganização.
Será um corpo totalmente novo
do qual você jamais irá esquecer.

Tradução livre de Jaime Leitão

A Rua, poema do francês Antonin Artaud (1896-1948): poeta, dramaturgo, ator, artista plástico, teórico do teatro .




A rua sexual se anima,
ao longo dela
faces com e sem desejo.
Há corpos desgarrados de si mesmos,
chilreios sons alucinantes.
Os cafés convidam ao crime,
avenidas são arrancadas do asfalto.

Sexo com mãos queimando dentro dos bolsos,
ventres fervem por dentro;
todos os pensamentos colidem
nas cabeças que mais parecem buracos.

Tradução livre de Jaime Leitão

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Talvez a mais querida, poema de Julio Cortázar

Você me deu o tempo e a intempérie,
a leve sombra de sua mão
tocou e permaneceu no meu rosto.
Você me deu o frio, a distância,
o amargo café da meia-noite
entre mesas vazias.

Tradução livre de Jaime Leitão

O que me atrai no seu corpo, poema de Julio Cortázar

O que me atrai no seu corpo é o sexo.
O que me atrai no seu sexo é a boca.
O que me atrai na sua boca é a língua.
O que me atrai na sua língua é a palavra.

TTradução livre de Jaime Leitão.

A máquina lenta da indiferença, poema de Julio Cortázar



A máquina lenta da indiferença
tritura em suas engrenagens os amantes :
corpos separados , travesseiros jogados,
páginas de cartas de amor rasgadas, beijos findos.
De pé diante do espelho
cada um questiona para si
as causas e o tamanho do desastre,
não mais olhando para o outro
com a nudez que não é mais para o outro.
Já não há um eu te amo meu amor,
que se bateu em retirada.

Tradução livre de Jaime Leitão

A Mosca, de Julio Cortázar

Eu terei que matá-la de novo.
Já a matei tantas vezes,
en Casablanca, em Lima,
em Cristiânia,
em Montparnasse, em uma fazenda em Lobos,
no bordel, na cozinha, sobre um pente,
no escritório.
Nesta almofada
terei que matá-la de novo,
única e plural mosca.
E eu a matarei com a minha única vida.

Tradução livre de Jaime Leitão