quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Uma breve reflexão sobre a teoria da relatividade, do poeta e imunologista tcheco Miroslav Holub (1923-1998)

Albert Einstein,
(O conhecimento é a descoberta
do que dizer)- em uma conversa um dia
com o poeta Paul Valéry-
foi perguntado:

-Einstein, como você trabalha
com as suas ideias? Você as anota
no momento em que lhe aparecem? Ou apenas
à noite? Ou na manhã seguinte?

Albert Einstein lhe respondeu:
-Monsieur Valéry, em nosso negócio,
ideias são uma presença tão rara que,
se damos de cara com uma,
certamente não a esqueceremos fácil.

Não em um ano.

E completou:

-Ideias não passeiam por aí ao nosso alcance.
É preciso caçá-las
e muitas vezes desaparecem
porque não passam de miragem.

Tradução muito livre por Jaime Leitão.

Bielo-Rússia 1, poema de Valzhyna Mort, poetisa da Bielo-Rússia (1981)

Até mesmo nossas mães não têm idéia de como nascemos
como nós separamos as pernas e nos arrastamos para fora no mundo
é como rastrear no escuro
As ruínas após o atentado.
Não podíamos dizer qual de nós era uma menina ou um menino.
Perdemos a noção de sexo
Identidade e quase tudo.
Assamos a sujeira e o lixo pensando que era o pão
e o nosso futuro
se transformou em uma ginasta em uma linha fina do horizonte
equilibrando-se no vazio
ou sobre o dorso de uma cadela faminta e ferida.

Nós crescemos em um país
no qual a sua primeira porta foi traçada a giz,
em seguida,
um carro escuro chegou
e ninguém viu mais nada.
Naqueles carros não andavam
nem homens armados
nem um andarilho com uma foice.
É como alguém que nos visita prometendo amor
e nos arrebata veladamente de nossa casa
para obscuro destino.

Nós nos sentimos completamente livres
apenas em banheiros públicos
onde ninguém se importava com o que estávamos fazendo.
Lutamos contra o calor do verão e a neve do inverno
quando descobrimos que nós mesmos
éramos corpos em forma de língua
e nossas línguas haviam sido removidas.
Começamos a conversar com
nossos olhos.
Quando nossos olhos foram arrancados de nossos órbitas
nós passamos a conversar com as nossas mãos.
Quando as nossas mãos foram cortadas
conversamos com os nossos dedos na mão arrancada.
Quando fomos baleados nas pernas
a cabeça balançava para dizer sim
e dizer não.
Quando arrancaram as nossas cabeças,
Fomos arrastados de novo para o ventre de nossas mães
Para dormir
Como em abrigos antibombas.
Lá dentro protegidos
Fomos nascendo de novo
Enquanto a ginasta do nosso futuro
Pulava através do arco ardente do sol
Equilibrando-se
E fazendo piruetas
Sem temer o perigo.

Tradução do bielo-russo pela autora com Franz Wright e Oehlkers Elizabeth Wright

Tradução muito livre do inglês para o português por Jaime Leitão.

Ansiedade, poema da poetisa sérvia Desanka Maksimovic (1898-1993)

Não, não venha para mim.
Eu quero de longe amar você e os seus dois olhos.
Porque a felicidade é apenas
um namorado aguardando
a namorada ilusão.

Não, não venha para mim.
O encanto está na expectativa, na doce apreensão e no medo.
Antes da revelação
há o prazer de sentir a presença de quem ainda não veio.

Não, não venha para mim .Quando e para quê?
Só de longe podemos mirar o brilho das estrelas.
Neste instante, admiro todas.
Deixe-me amar os seus olhos à distância.

Tradução muito livre por Jaime Leitão

Tapeçaria, poema do poeta sérvio Charles Simic (1938)

O tapete traz imagens
que vão do céu à terra.
Há árvores nele, cidades, rios,
leitões e luas. Em um canto,
a neve cai sobre cavalos no pasto,
no outro , as mulheres trabalham no plantio de arroz.


Você também pode ver:
uma galinha sendo devorada por uma raposa,
um casal nu na sua noite de núpcias,
uma coluna de fumaça,
uma mulher carregando um balde de leite.


O que há além disso?
-Espaço, muito espaço vazio.

E quem está sendo focalizado agora?
-Um homem adormecido sob seu chapéu.

O que acontece quando ele acorda?
-Ele entra em uma barbearia.
O barbeiro irá raspar a sua barba, pelos do nariz, orelhas
e cortar o seu cabelo
Para fazê-lo se parecer com todo mundo.
►

A Pequena Caixa, poema do poeta sérvio Vasko Popa(1922-1991)

A pequena caixa recebe o seu primeiro dente
Possui pequena largura
comprimento.
E pouco espaço vazio.
Todo o resto ela possui.

A pequena caixa –sem explicação-
Começa a crescer.
O armário que estava no interior da casa
Está agora dentro dela.

E ela cresce mais e mais.
Torna-se maior do que pudéssemos supor.
O quarto está dentro dela,
A casa , a cidade , o planeta, o universo.


A pequena caixa recorda a sua infância
Toda sua memória cabe nela.
E por um grande anseio seu
Ela se torna de novo uma caixinha
pequena como antes.

Agora, na caixinha
Você tem o mundo inteiro em miniatura.
Você pode facilmente colocá-la no bolso,
Mas corre o risco de perdê-la
Ou que seja furtada
Como se fosse
Uma chave ou uma carteira.

Cuide bem da caixinha.
Ela contém você.

Tradução livre por Jaime Leitão.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Um número esquecido, poema do poeta sérvio Vasko Popa (1922-1991)

Houve uma vez um número
Puro e redondo como o sol
Mas só
muito sozinho
com uma solidão ampla e circular.

Ele começou a contar com os seus próprios recursos
de número solitário.
Dividu-se, multiplicou-se
Subtraiu-se, adicionou-se
E manteve-se sempre sozinho.

Ele chegou a um ponto limite
e parou de fazer acerto de contas consigo mesmo.
Fechou-se a sua volta
E passou a usufruir da pureza do sol.
De fora ficaram os ardentes
Traços de seus cálculos.

Eles começaram a perseguir uns aos outros através da escuridão.
Para dividir, quando deveriam se multiplicar.
Para subtrair, quando deveriam se somar.

Isso é o que acontece no escuro.

E não havia ninguém para perguntar
Para tirar as dúvidas
Para conferir os resultados
Para parar a perseguição
E lançá-los para fora
Dessa guerra numérica
Que não cessava nunca.

Tradução livre por Jaime Leitão