sábado, 15 de janeiro de 2011

A PARTIR DE UMA VIAGEM, poema de Nimesh Nkhil, do Nepal

A PARTIR DE UMA VIAGEM

Atravessando a cadeia de estradas
Uma após a outra
Longe, muito longe
para as montanhas remotas
E planícies sem fim
Eu pisei sem querer no presente.
Pirâmides de ilusão
me envolviam em um labirinto.
Na verdade a minha jornada
ainda nem começou.

Nessa viagem
Eu carrego
Uma sacola de tristezas e felicidade,
divididas em compartimentos
bem ordenados
trazendo experiências de ganhos e perdas.
E na mala vazia
Eu busco a mim mesmo, e encontro
a solidão de sentimentos confusos
presos no fundo
como roupa amarrotada.
É embaraçoso dizer isso,
mas na verdade a minha jornada
ainda nem começou.

Música, poema de Anjali Chhetri, do Nepal

A magia de uma sequência de seis cordas
cai sobre mim como uma chuva suave
e afoga-me em uma profundidade de pensamentos
onde o mundo perde o seu poder.
Não há alegria nem desculpas por qualquer fato,
mas uma mera sensação de estar hipnotizado.
A confusão do mundo se dissolve
e tudo em mim fica equalizado.
O mundo corre mais rápido do que eu
e eu não posso manter o meu ritmo.
Eu doo para quem queira
todos os meus esforços desesperados.
Deito-me para assistir à pressa alheia.
Ouço essa mistura de música com batida do meu coração;
O mundo morre lentamente afastado.
Não há nada a possuir:
nem no passado nem no presente.
E o futuro é só abstração.
A música flui quando as cordas vibram
e aí eu posso ver
como a mentira é fabricada neste mundo.
Isso faz você correr o dia inteiro
mas , ao entardecer, nada mais lhe pertence.

Tradução livre do inglês: Jaime Leitão

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Uma breve reflexão sobre a teoria da relatividade, do poeta e imunologista tcheco Miroslav Holub (1923-1998)

Albert Einstein,
(O conhecimento é a descoberta
do que dizer)- em uma conversa um dia
com o poeta Paul Valéry-
foi perguntado:

-Einstein, como você trabalha
com as suas ideias? Você as anota
no momento em que lhe aparecem? Ou apenas
à noite? Ou na manhã seguinte?

Albert Einstein lhe respondeu:
-Monsieur Valéry, em nosso negócio,
ideias são uma presença tão rara que,
se damos de cara com uma,
certamente não a esqueceremos fácil.

Não em um ano.

E completou:

-Ideias não passeiam por aí ao nosso alcance.
É preciso caçá-las
e muitas vezes desaparecem
porque não passam de miragem.

Tradução muito livre por Jaime Leitão.

Bielo-Rússia 1, poema de Valzhyna Mort, poetisa da Bielo-Rússia (1981)

Até mesmo nossas mães não têm idéia de como nascemos
como nós separamos as pernas e nos arrastamos para fora no mundo
é como rastrear no escuro
As ruínas após o atentado.
Não podíamos dizer qual de nós era uma menina ou um menino.
Perdemos a noção de sexo
Identidade e quase tudo.
Assamos a sujeira e o lixo pensando que era o pão
e o nosso futuro
se transformou em uma ginasta em uma linha fina do horizonte
equilibrando-se no vazio
ou sobre o dorso de uma cadela faminta e ferida.

Nós crescemos em um país
no qual a sua primeira porta foi traçada a giz,
em seguida,
um carro escuro chegou
e ninguém viu mais nada.
Naqueles carros não andavam
nem homens armados
nem um andarilho com uma foice.
É como alguém que nos visita prometendo amor
e nos arrebata veladamente de nossa casa
para obscuro destino.

Nós nos sentimos completamente livres
apenas em banheiros públicos
onde ninguém se importava com o que estávamos fazendo.
Lutamos contra o calor do verão e a neve do inverno
quando descobrimos que nós mesmos
éramos corpos em forma de língua
e nossas línguas haviam sido removidas.
Começamos a conversar com
nossos olhos.
Quando nossos olhos foram arrancados de nossos órbitas
nós passamos a conversar com as nossas mãos.
Quando as nossas mãos foram cortadas
conversamos com os nossos dedos na mão arrancada.
Quando fomos baleados nas pernas
a cabeça balançava para dizer sim
e dizer não.
Quando arrancaram as nossas cabeças,
Fomos arrastados de novo para o ventre de nossas mães
Para dormir
Como em abrigos antibombas.
Lá dentro protegidos
Fomos nascendo de novo
Enquanto a ginasta do nosso futuro
Pulava através do arco ardente do sol
Equilibrando-se
E fazendo piruetas
Sem temer o perigo.

Tradução do bielo-russo pela autora com Franz Wright e Oehlkers Elizabeth Wright

Tradução muito livre do inglês para o português por Jaime Leitão.

Ansiedade, poema da poetisa sérvia Desanka Maksimovic (1898-1993)

Não, não venha para mim.
Eu quero de longe amar você e os seus dois olhos.
Porque a felicidade é apenas
um namorado aguardando
a namorada ilusão.

Não, não venha para mim.
O encanto está na expectativa, na doce apreensão e no medo.
Antes da revelação
há o prazer de sentir a presença de quem ainda não veio.

Não, não venha para mim .Quando e para quê?
Só de longe podemos mirar o brilho das estrelas.
Neste instante, admiro todas.
Deixe-me amar os seus olhos à distância.

Tradução muito livre por Jaime Leitão

Tapeçaria, poema do poeta sérvio Charles Simic (1938)

O tapete traz imagens
que vão do céu à terra.
Há árvores nele, cidades, rios,
leitões e luas. Em um canto,
a neve cai sobre cavalos no pasto,
no outro , as mulheres trabalham no plantio de arroz.


Você também pode ver:
uma galinha sendo devorada por uma raposa,
um casal nu na sua noite de núpcias,
uma coluna de fumaça,
uma mulher carregando um balde de leite.


O que há além disso?
-Espaço, muito espaço vazio.

E quem está sendo focalizado agora?
-Um homem adormecido sob seu chapéu.

O que acontece quando ele acorda?
-Ele entra em uma barbearia.
O barbeiro irá raspar a sua barba, pelos do nariz, orelhas
e cortar o seu cabelo
Para fazê-lo se parecer com todo mundo.
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